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Review | Livro "The Handmaid's Tale - O Conto da Aia"


Sinopse Rocco: Visão assustadora de uma sociedade radicalmente anulada por uma revolução teocrática no século XXI, O Conto da Aia tornou-se um dos romances mais poderosos de nossos tempos. Nas palavras da própria Margaret Atwood: "a República de Gilead é construída sobre a base das raízes puritanas do século XVII que sempre estiveram por baixo da América moderna que pensávamos conhecer".

Atenção! Este conteúdo contém SPOILERS do livro “The Handmaid's Tale - O Conto da Aia", de Margaret Atwood

O Conto da Aia faz parte da literatura de ficção científica, uma distopia cuja leitura causa incômodo e desconforto já que é impossível lê-lo e não encontrar paralelos com a realidade em que vivemos. A série de 2017 estreou em um momento delicado para a política dos Estados Unidos, havia ali um marketing desproposital, mas a trama escrita por Margaret Atwood vai muito além disso por ser tão atual desde 1985, quando foi publicada.

O drama vivido por Offred é narrado em primeira pessoa, o livro mostra a vida na República de Gilead após os Estados Unidos sofrerem uma revolução que derrubou todo o governo e passarem a ser comandados militarmente por radicais cristãos, os Commanders of the Faithful/ (Comandantes dos Fiéis). Regidos por interpretações exageradas da Bíblia, os novos governantes excluem as mulheres da vida em sociedade, dividindo-as em castas com funções bem definidas: as Marthas, responsáveis pelos serviços domésticos; as Esposas, administradoras do lar; as Aias, com função de reproduzir; e as Tias, senhoras que educam as mulheres para a servidão e submissão. Em Gilead, a mulher ocupa a posição mais baixa da sociedade, sem direito a opinar, se expressar, ter sentimentos ou até mesmo ser alfabetizada.

Apesar de toda essa repressão, é interessante notar que Esposas, Tias e muitas Marthas parecem não se importar com a posição que receberam. A gana por filhos é uma das justificativas dessa quietude das Esposas. As Tias parecem aceitar o papel que tomaram por ser a única forma de manter um status de poder. A doutrinação que o emaranhado de Gilead criou é evidente em Janine que em certo ponto começa a aceitar seu papel de servir como aia.

A narradora, Offred, que no livro não tem seu nome verdadeiro revelado, é a aia principal que nos conta em extensos monólogos sua rotina na casa dos Waterford. Ela vive ali com a única função de gerar um filho para Fred e Serena. Entre momentos em que relembra bem o seu passado com um marido e uma filha e as passagens em que mostra os horrores dos novos tempos, Offred vai tecendo um mosaico de situações que, apesar das hipérboles propositais da autora, guarda para a posteridade semelhanças com realidades do século XXI.

Dentre as coisas às quais Offred tem acesso privilegiado e nos revela em sua narrativa, descobrimos que Gilead enfrenta conflitos bélicos com outras nações. Também, mais vagamente, que alguma radiação trouxe a infertilidade, sendo esse o motivo para mulheres saudáveis, com capacidade de gerar a vida, serem recrutadas para o posto de aias. O livro também menciona rapidamente as Colônias, lugares onde o lixo tóxico ficou concentrado para os quais as mulheres traidoras do gênero e que não servem para serem aias são levadas como punição, limpando detritos até a morte. A obra foca mais na vida da narradora, nas incursões externas as quais é autorizada e nos percalços que enfrenta. A série de 2017 se baseou no livro até o penúltimo capítulo, o último vai 200 anos após os acontecimentos de Gilead, no "Décimo Segundo Simpósio sobre Estudos Gileadeanos" em 2195.

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Publicado em 1985, O Conto da Aia tem claras inspirações na Revolução Islâmica de 1979 que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática. Ao imaginar um país comandado por cristãos radicais, Margaret Atwood nos mostra as várias possibilidades de dominação que os povos podem sofrer, independente de credos, raças ou culturas. Em momentos de fragilidade, as pessoas tendem a confiar naqueles que trazem as soluções rápidas e radicalistas, mesmo que para isso seja preciso sacrificar um pouco da tão falada liberdade de "minorias?".

Ainda que poupe o leitor de cenas fortes e nauseantes como algumas vistas na série, Atwood produziu um grito de alerta contra os grupos e pensamentos que vivem à espreita do poder, aguardando o momento certo de se apresentarem com as fórmulas que trarão a solução. O horror que aconteceu ficcionalmente em Gilead, principalmente e quase unicamente com as mulheres, acontece nas vielas e becos de países mundo a fora. As perseguições políticas e assassinatos de quem resiste são realidade. O Conto da Aia traz desconforto porque ele se mostra ameaçadoramente real em discursos e noticiários que temos acesso diariamente.

O Conto da Aia não é uma obra para uma leitura rápida e descontraída, eu escrevi essa review depois da quinta vez que o li. O livro é uma distopia poderosa para ser lida e assimilada em toda a sua essência, alertas e mensagens. É um "até logo" desde 1985, poderoso o suficiente para ser reimpresso com o passar dos anos e isso não é apenas culpa da série. Segundo Margaret Atwood "Alguns livros assombram o leitor. Outros assombram o autor. The Handmaid's Tale fez os dois", sendo assim, O Conto da Aia é sucesso em áreas além do que promete.

Em setembro desse ano deve ser lançado "The Testaments", sequência de O Conto da Aia que deve avançar 15 anos da cena final de Offred, mas deve ser narrado por outras três mulheres.

Texto: Marcos Snigura

Revisão: Maria Clara Gallucci