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Review | The Handmaid's Tale S02E07 - "After"


Atenção! Este conteúdo contém SPOILERS do sétimo episódio, S02E07 – “After”, da segunda temporada de The Handmaid's Tale.

The Handmaid’s Tale na metade de sua segunda temporada nos apresenta o impacto da explosão que aconteceu no final do episódio anterior, além disso traz de volta os belos e sombrios cenários na neve. É inevitável lembrar dos trailers e teasers da segunda temporada, onde aias vestidas de preto – figurinos ineditos - marchavam por um caminho coberto de gelo, obviamente com destino a um funeral. Sabíamos que alguém importante morreria. Mas para desespero dos telespectadores, o Comandante Waterford não está entre os mortos - ele continua vivo! As aias marcham para o enterro de 31 aias que morreram como resultado dos explosivos da segunda Ofglen.

O funeral em si - repleto com caixões vermelhos e alguma hipocrisia extra da Tia Lydia, que declara “Eu gostaria de poder lhes dar um mundo sem violência, sem dor. É tudo que sempre quis”- é mais do se esperava que aias recebessem depois do atentado. A trama mais uma vez provou que as cerimônias de Gilead são reservadas para as classes dignas, então isso deve ser uma propaganda da mais alta ordem, destinada a mostrar às aias que ainda há ordem na frágil nação totalitária. Gilead ama uma boa cerimônia, ou você é da Resistência e morre ou é uma aia e vive.

A cerimônia serve para mostrar respeito a cada aia que morreu, com Tia Lydia chamando pelo nome de cada mulher - Ofryan, Ofduncan, Ofsomedude - e as aias curvando-se para os caixões e segurando os véus em seus rostos, como enlutadas profissionais. Mas enterrar essas mulheres com seus nomes de Gilead é como ler o número tatuado de uma vítima do Holocausto, ou até um brinco de uma cabeça de gado, como se fosse sua verdadeira identidade.

“Você sabia o nome verdadeiro de Ofglen?”, June pergunta a outra aia enquanto a van às leva do cemitério. June em nenhuma de suas saídas de compras perguntou o nome verdadeiro de sua parceira Ofglen, e teria sido muito difícil para a sucessora de Emily falar depois que teve sua língua cortada por ter defendido Janine. Mas agora June sente que precisa saber o nome verdadeiro para dar à Ofglen sua verdadeira identidade e que ela possa ir em paz. Os olhares das aias ao redor indicam uma súbita percepção de que elas não se conhecem muito bem, apesar de terem passado meses sofrendo juntas nas mãos das tias e dos comandantes. Afinal de contas, o isolamento forçado por meio do anonimato impede que as aias se unam e, potencialmente, formem Resistência.

Mesmo na Little America, as identidades dos mortos permanecem desconhecidas, guardadas em inúmeras gavetas de arquivos. Luke ainda é convicto de que June está viva. Mas Moira precisa de provas de que sua própria parceira - a ginecologista que ajudou Moira durante uma gravidez de aluguel - se foi, e assim ela vasculha página por página de fotos de cadáveres, procurando pelo rosto familiar da parceira. É ótimo ter mais tempo com Moira em The Handmaid’s Tale, quem não se envolve com uma história dessas? Mas outras perguntas acabam surgindo com esse paralelo da personagem: Por que não ouvimos mais sobre o relacionamento de Moira anteriormente? Como o centro de refugiados se apossou de todas aquelas fotos de cadáveres espalhados pela calçada em outro país com as fronteiras fechadas? Como Moira se envolve tanto com a ginecologista até que o bebê é entregue aos 3 meses de idade para outro casal?

De volta a Gilead, o comandante Pryce, chefão de Gilead que recrutou Nick e prometeu no episódio anterior que ele iria mudar de casa, também está morto, o que abre espaço para um novo líder. Pryce foi quem escolheu dedo a dedo os Olhos e que presidiu o Conselho, que toma as decisões do governo em Gilead. E como um dos primeiros membros dos Filhos de Jacó, o grupo religioso que realizou o golpe contra o governo americano, ele ocupava um lugar inigualável no topo da hierarquia. Com o Comandante Waterford ferido, por vezes até perdendo a consciência em um quarto de hospital, Cushing é quem fica com a posição de Pryce no governo Gilead.

No caminho de casa, as aias veem vários corpos enforcados nas árvores, Marthas sendo baleadas na rua, e veículos em alta velocidade, tudo isso é obra de Cushing. Com nada de sutileza, ele cria uma revolta e - aparentemente nunca leu nada sobre como NÃO administrar uma ditadura – ele tenta anulá-la com pura força bruta.

Suas táticas provavelmente são eficazes para assustar grande parte da população. Gilead sempre foi um lugar violento, onde traidores de gênero são enforcados em um muro para toda a cidade ver e a desobediência resulta em queimaduras de terceiro grau. Mas agora a violência é aleatória. A julgar pela vista da janela da vã que leva as aias, uma ou duas pessoas de quase todos as casas foram enforcados, não necessariamente porque cometeram um crime ou incitaram o ato de Ofglen, mas apenas para lembrar a todos do poder que tem o governo.

É evidente que Cushing não vai muito longe quando subestima June e Serena, duas mulheres. Cushing está pescando pistas enquanto questiona June - o que ele realmente quer é dar a culpa de sua fuga a Fred Waterford, e empurrá-lo para fora de Gilead enquanto o Comandante estiver fraco. Mesmo Elisabeth Moss empregando uma expressão dócil a June, Cushing quer mais. Uma vítima inocente como ela não poderia ter planejado nada, Cushing não se encanta por isso.

Deve ter sido tentador culpar Fred, declarar que esse homem - que a estuprou, a espancou, a castigou, a humilhou e a depreciou intelectualmente - é um terrorista, que ele sabia da explosão e que a deixe jogar Scrabble. Mas June prefere omitir e não está disposta a arriscar a ligeira vantagem que ganhou na casa dos Waterford (a foto de Hannah, alguma adoração do Comandante e o efeito de sua gravidez no casal).

Então ela prontamente relata a conversa para Nick e Serena. Serena também não está satisfeita com o poder de Cushing, e ela é esperta o suficiente para virar o jogar a seu favor. Além disso, ela vê a oportunidade de se reinserir na comunidade que criou, ela não só se vê como resgatando Gilead de um homem que matará indiscriminadamente e deixará tanques patrulharem as ruas, ela está recuperando a versão que sua utopia religiosa dita.

É um momento inquietante de empoderamento feminino quando Serena espera Nick chegar em casa e usa sua experiência como o braço direito do Comandante para forjar um mandado e submetê-lo ao Consulado da Lei Divina. Ver uma mulher com tamanha fúria sobre um comandante de poder como Cushing faz o telespectador se render a ela. Mas os motivos de Serena são evidentemente confusos. Ela está feliz em usurpar o papel do marido depois que ele permitiu que os Filhos de Jacó a demitissem de suas ocupações, ao mesmo tempo está ansiosa para construir a versão de Gilead que ela mesma imaginou. E não subestimemos quão atraente a escrita possa ser para uma mulher altamente educada e inteligente que foi forçada a uma vida desprovida de rigor intelectual.

Então, embora possa ser tentador aplaudir quando ela entrega uma caneta e um rascunho a June e pergunta a ela “Você é uma editora, certo?”. Este jogo de “vamos melhorar a ditadura” não é, em si, um ponto positivo para as mulheres de Gilead. Assim como o comandante Waterford trouxe June para seu escritório e a convidou para jogos de Scrabble, Serena está usando June para seus próprios propósitos.

O que será mais interessante de ver é se o estreitamento dessa relação e o respeito momentâneo que as acompanha abrirão a mente de Serena para a ideia de ajudar na fuga de June. June precisa de uma pessoa poderosa com acesso a Hannah, será que ela estaria disposta a desistir do bebê na barriga para fugir com a filha que foi arrancada de seus braços?

Enquanto o clique da caneta acendia uma pequena fagulha, os sussurros das aias no mercado desencadeavam um enorme incêndio. Animada por encontrar Janine, e determinada a compartilhar algo de si em reação ao enterro sem nome de Ofglen, June sussurra seu nome para Emily, a quem ela tão ferozmente duvidou no início da primeira temporada. Isso inicia uma reação em cadeia. Agora, com um pequeno ato de subversão, elas formam uma frente unida, prontas para compartilhar mais do que seus nomes. Infelizmente, com Éden – fã de Gilead - no meio delas, as destemidas aias não estão sozinhas.

Texto escrito para The Handmaid's Tale Brasil, reviews sempre as quartas, mesmo dia da entrada do episódio no catálogo do Hulu. Então, você percebeu algo que não está esclarecido aqui nessa review? Tem algo a acrescentar? Comente abaixo sua opinião sobre o episódio.