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Review | The Handmaid's Tale S01E01 - "Offred"


Atenção! Este conteúdo contém SPOILERS do episódio piloto, S01E01 - "Offred", da primeira temporada de The Handmaid's Tale.

O dicionário define a distopia como "local imaginário, circunstância hipotética, em que se vive situações desesperadoras, com excesso de opressão ou de perda". Durante anos, vimos diversos tipos de distopia retratados nas pequenas e grandes telas. Seja em filmes como Mad Max ou séries como The Walking Dead, mas provavelmente nunca fomos apresentados a uma distopia tão relacionável com a realidade em que vivemos.

Na bíblia, o termo Aia vem da história de Raquel, esposa de Jacó, que infértil, deu a ideia ao marido de conceber o filho do casal com uma serva. A Bíblia é um objeto de estudo na série. Suas diversas interpretações - que quase todas as vezes se mostram perigosas - são exploradas com fervor pelos maníacos de Gilead, onde, obcecados pelo tradicionalismo, resolvem levar o livro sagrado da forma mais literal que podem.

A história é contada sob o ponto de vista de June, ou agora Offred - "De Fred" - a personagem de Elizabeth Moss diz "Eu tinha um nome antes, mas agora ele é proibido". Esse primeiro monólogo da aia nos situa na fatídica situação das Handmaids, não são donas do próprio corpo, nem do próprio nome. No primeiro episódio somos introduzidos sobre o olhar minucioso de June aos detalhes minimalistas do dia a dia rotineiro da vida pós-Estados Unidos. June sai, faz compras, anda acompanhada de outa aia - Ofglen - volta para casa e faz tudo novamente no dia seguinte.

O mais assustador em toda a situação é a forma como a brutalidade e o horror foram introduzidos como coisas ordinárias na vida Gileadeana. Em uma das cenas, June e Ofglen passam por um muro onde três pessoas mortas estão enforcadas. Aquilo está a disposição para todos que passarem por ali sobre a luz do dia. A violência exacerbada molda a vida em Gilead e temos uma clara noção disso quado nos é mostrado o estrago psicológico que Janine sofreu.

O episódio é o primeiro contato do telespectador com o universo criado por Margaret Atwood, então é necessário um pouco mais de contexto para a melhor imersão na série. Ele oscila entre cenas no presente e flashbacks, contando mais sobre a história de June e das pessoas a sua volta. Na primeira cena descobrimos que June possui uma filha e um marido, a família está em fuga, logo todos são separados, a mesma perde a filha, seu marido é baleado enquanto os três tentavam fugir ao Canadá. No decorrer do episódio descobrimos que June também tinha uma amiga, Moira, e ambas passaram juntas pelo Centro Vermelho - primeiro contato das aias com o mundo Gileadeano e onde elas aprendem a se portar nesse novo conceito de sociedade totalitária.

É interessante observar como o conceito de sororidade é distorcido nesse universo. Durante o treinamento no Centro Vermelho as aias constantemente se veem em situações onde precisam apontar o dedo para a outra e culpá-la por algo. O mesmo acontece depois, quando elas estão em suas devidas casas. As aias andam em duplas, "É para nossa proteção. Por companheirismo. Isso é besteira. Não há amigos aqui. Não pode haver. A verdade é que estamos vigiando uma à outra." No nosso cotidiano, infelizmente, ainda é comum criar atrito entre duas mulheres. Existe o estereótipo de que mulheres se detestam e isso apenas fortalece o sistema machista que as envolve, pois se as vítimas se voltarem umas contra as outras, a chance de uma defesa coletiva é quase aniquilada. E é isso que vemos nesse episódio. As mulheres são postas como inimigas, tanto dentro das mesmas castas e mais ainda de casta para casta, quando, na verdade, todas são vítimas do mesmo problema. Seja na relação de aia com aia, aia com Martha ou aia com as Esposas. As mulheres são vistas como antagonistas umas das outras e forçadas a agirem como se elas fossem o problema.

O verdadeiro antagonismo da história de June nos é introduzido pelo nome de Fred Waterford, o Comandante, um homem do alto escalão de Gilead. Ele e sua esposa - Serena Joy - São o casal para quem June serve. Fred no começo parece amigável e isso desperta fúria, mesmo que contida, de Serena. A mesma aparenta ser fria e quase sem emoções. Definitivamente o momento mais forte do episódio é protagonizado pelos três. A temida Cerimônia.

Durante o episódio, é difícil não se perguntar se toda aquela situação poderia ficar ainda pior, e como já dizem que não existe nada tão ruim que não possa piorar, a situação das aias realmente piora. A Cerimônia é um evento mensal onde o Comandante de cada família tenta engravidar a aia enquanto a mesma fica sobre as pernas abertas da esposa. June diz em um ponto do episódio que o dia mais difícil de todos é o dia da Cerimônia, e é fácil imaginar o porquê. A cena é terrivelmente forte e incômoda. É notável que aquilo não é torturante apenas para June, mas também para Serena, que se mostra completamente abalada no final. Obviamente isso não se compara com o sofrimento da aia. O foco constante no rosto de June deixa evidente todo o contexto asqueroso daquela situação. Aquele é o momento mais humilhante para a aia, o momento onde elas são obrigadas a passar por um estupro sem nem a remota possibilidade de se defender. É covarde, sujo e nojento.

Estamos acompanhando um conto pelos olhos da aia e a história não parece ser nada animadora para June, que mesmo passando pelo que passa, está determinada a sobreviver. Hannah, sua filha, é o móvito pelo qual ela segue firme. Ao final do episódio temos um vislumbre de sua força, tudo amplificado pela fantástica trilha sonora. "Não sou sua, eu não sou um dos seus brinquedos" diz a música "You Don't Own" Me de Leslie Gore. 
Her name is Hannah.
My husband was Luke.
My name is June.
O nome dela é Hannah.
Meu marido era Luke.
Meu nome é June.