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Review | The Handmaid's Tale S01E02 - "Birth Day"


O nascimento é o evento que dá início a vida. Primordialmente é o ato mais humano que todos nós um dia já passamos. O episódio foi moldado em torno da complexidade e delicadeza do ato de dar à luz, mesmo que nesse universo perverso. 

Se antes não estavam claras as intenções de Ofglen, nesse episódio foi oficialmente estabelecida qual é a da personagem. Sua relação com June se aprimorou durante suas caminhadas até o mercado com suas conversas disfarçadas. Descobrimos coisas muito importantes, como a existência de um “Nós” que Ofglen diz fazer parte. Não há mais informação do que isso, mas o “nós” de Ofglen é suficiente para June entender que existe uma resistência. É interessante saber sobre a existência de pessoas que escolhem lutar contra esse sistema fortemente estabelecido. Não nos foi ofertado muitos detalhes, porém já é uma fagulha de esperança para nós – e claro – para June.

Uma das coisas mais interessantes sobre a criação do universo em The Handmaid’s Tale é a forma como eles nos passam as informações de forma orgânica sem cair na exposição gratuita. Em um pequeno diálogo entre as duas Aias descobrimos mais sobre o passado de Ofglen. Seu nome é Emily, ela é homossexual e professora universitária. Também descobrimos que professores são enviados para as colônias, o que nos mostra como o sistema de lavagem cerebral de Gilead é eficaz, pois eles se livram daqueles que podem nos oferecer um pensamento racional, deixando todos em uma grande massa de ignorância.

Ao decorrer do episódio é possível notar como June muda sua posição em relação a Emily. No episódio anterior vimos June despejar insultos para com a mesma. É compreensível, ambas, até então, não haviam tido uma conversa real além do básico, não se pode confiar nas Aias, pois elas andam em duplas para que uma possa vigiar a outra, então nunca se sabe com quem realmente pode se falar abertamente. Gilead faz um ótimo trabalho em mantê-las separadas.


Nesse episódio temos uma June mais ousada, mesmo que em dosagens certeiras. June havia dito no último episódio que estava determinada a sobreviver e é palpável ao telespectador essa mudança na personagem. Durante o episódio temos uma cena em que June acaba de chegar em casa e está retirando suas botas na presença de Nick. Propositalmente June levanta sua veste dando ao homem um pequeno vislumbre de suas pernas, isso dura por mais tempo do que realmente necessita e Nick percebe que June está o provocando. Aos poucos a incorformação de June está se desenvolvendo em pequenas ações que transpassam sua rebeldia contida, rebeldia está que é vista como petulância por seus superiores. 

Uma das melhores cenas do episódio aconteceu enquanto as Aias e as esposas estavam esperando a filha de Janine nascer. Serena Joy é fria, calculista e parece ter uma implicância particular com June, então foi impagável ver o descontentamento em sua face quando a Aia aceitou o biscoito que outra esposa lhe ofereceu. A série se mostrou muito apegada aos detalhes minimalistas, então é palpável que os atos de rebeldia de June também sejam. Aceitar o biscoito foi uma ofensa para Serena, a Aia deveria apenas entrar, responder o que lhe foi perguntado e se retirar. Logo em seguida temos a cena de June cuspindo o biscoito e isso só nos dá a certeza de que o gosto do doce nem se compara com o gosto da raiva que June fez Serena passar.


Como dito antes, o nascimento é um evento que permeia esse episódio. Aos poucos somos introduzidos aos rituais de Gilead e dessa vez pudemos testemunhar como eles lidam com o ato de dar à luz. Sabe-se que as mulheres têm ficado cada vez mais estéril e, portanto, as Aias, que são mulheres férteis, carregam os filhos. O nascimento em Gilead carrega uma importância primordial para o sistema, pois indica que os planos deles estão funcionando e quanto mais pessoas nascerem dentro desse sistema, mais estabilizado ele se torna

Já havíamos visto no episódio anterior que Janine estava já no final de sua gravidez. Agora testemunhamos seu parto. As cenas na bela mansão onde a mesma vive são intrigantemente belas. A série já estabilizou um padrão estético que é sublime. As cores são muito importantes e ajudam a contar a história. Nas cenas do parto de Janine a cor que predomina é o branco. A sala é muito bem iluminada e a cor realça e vermelho das Aias e também serve para simbolizar a paz e a inocência do ato de dar à luz. Todo o desenvolver da cena é emocionante. Tia Lydia se mostra extremamente tocada e as Aias estão ali para amparar a mesma.

Ao mesmo tempo que acompanhamos o parto de Janine, somos apresentados ao parto da própria June quando teve Hannah através de flashbacks. É interessante observar a discrepância entre as duas situações. June teve sua filha no mundo pré-revolução onde a mesma ainda possuía acesso a hospital e cuidados médicos. Janine precisou passar por uma situação bem mais complicada e retrograda, mas no fim das contas, as duas situações nos levam ao mesmo resultado: A vida.


Durante todo o episódio June passou em conflito em relação ao convite do comandante. A mesma recorreu até mesmo para Emily em busca de uma solução para a situação. O medo dela é compreensível, pois é proibido ir até a cabine do comandante sozinha e June sabe que existe um Eye na casa. Nós também compartilhamos da mesma aflição da personagem. O que Fred quer com ela? Será que ela fez alguma coisa? June vai ser penalizada? No fim a resposta é muito mais simples do que poderíamos imaginar: O comandante apenas queria jogar um jogo de tabuleiro.

Assim como June, também fiquei surpreso ao descobrir o motivo pelo qual Fred a chamou em confidencia. Ficou claro ali que ele queria se aproximar da Aia e ele criou a situação perfeita para isso. É interessante ver a forma como, aos poucos, June se deixa levar a começa a aproveitar o jogo. Sua rotina parece ser tão entediante que até mesmo um simplório jogo de tabuleiro oferece a ela a maior diversão do mundo naquele momento. Não acontece muito mais do que isso, os dois apenas jogam o jogo, porém são nos detalhes sutis que se deve prestar a tenção. As trocas de olhares, a forma como o comandante a olha e a tensão criada durante o jogo nos levam a crer que Fred não chamou June ali apenas por chamar.


Ao fim do episódio temos um June determinada ao som de “Don’t You Forget About Me” a Aia tinha uma informação útil para dar a Ofglen e não precisava mais se preocupar em saber o que o comandante queria com a mesma. É animador ver June parecer até mesmo reluzente por um instante.

Pena que não dura muito. 

A surpresa de June reflete a nossa própria surpresa quando a mesma descobre que Emily não é mais Ofglen. Agora que as coisas pareciam estar indo bem e agora que June parecia ter encontrado uma aliada, tudo desmorona. O perigo eminente vem de todo lugar e, agora, mais que nunca, sabemos disso.